Manuel Rodrigues Lapa (1897-1989) / Fondo: Valentín Paz-Andrade no seu arquivo persoal / PROXECTO EPÍSTOLAS / FONDOS DOCUMENTAIS / CONSELLO DA CULTURA GALEGA

Fondo: Valentín Paz-Andrade no seu arquivo persoal

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Manuel Rodrigues Lapa (1897-1989)
Fondo: Valentín Paz-Andrade no seu arquivo persoal

Filólogo e catedrático da Universidade de Lisboa. Manuel Rodrigues Lapa (Anadia, Aveiro, 1897-1989) foi un filólogo portugués que realizou varias investigacións sobre o a lingua galega. Estudou na Universidade de Lisboa, onde se doutorou coa tese Das Origens da Poesia Lírica em Portugal na Idade Média (1930). Pola súa oposición ao Goberno de António de Oliveira Salazar, foi afastado da Facultade de Letras en 1935 e pasou a dedicarse ao xornalismo (dirixiu O Diabo) e ás investigacións literarias. Tras ser encarcerado exiliouse en Brasil, onde deu clase en varias universidades e onde realizou investigacións sobre o século XVIII en Minas Gerais. Regresou a Portugal despois do 25 de Abril.

Desde os inicios da súa carreira investigadora prestou atención á lingua galega, primeiro nos vilancicos dos séculos XVII e XVIII e, posteriormente, nas cantigas de escarnio e maldicir. En 1973, Rodrigues Lapa publicou un artigo na revista lisboeta Colóquio/Letras no que se proclamaba partidario de que o galego se escribise con ortografía portuguesa. O artigo reeditouse en Grial e provocou unha acendida polémica.
Temos 7 epístola/s relacionada/s con Manuel Rodrigues Lapa (1897-1989) en Fondo: Valentín Paz-Andrade no seu arquivo persoal
Data Título Orixe-Destino Relación [ O. ]
Data Título Orixe-Destino Relación [ O. ]
1960-11-18
Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1960
Anadia -
Remitente Orixinal - Transcrición

Transcripción da Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1960 en 18/11/1960

Anadia, 18 de novembro de 1960


Meu prezado Amigo

O livro que amavelmente me ofereceu não ficou esquecido. Fui-o lendo aos poucos, absorvido como ando por tarefas editoriais urgentíssimas, que me tomam todo o tempo; e também pelos preparativos, sempre complicados, do meu regresso ao Brasil. Desculpe pois a demora.
Agradeço-lhe a citação que faz do meu nome, num trecho crucial que define há muitos anos a minha orientação nos problemas da nossa cultura. A Galiza está na base dessa cultura, e sem o seu conhecimento não se pode conhecer Portugal. Pretendi ir mais além. Essa velha cultura irradiou pela América e encontrou no Brasil condições magníficas para o seu desenvolvimento. O que profundamente me agrada no seu livro é o reconhecimento do grande papel que o Brasil, como expoente da nossa cultura, está fadado a exercer no mundo, instituindo, depois da derrocada da América do Norte, que me parece certa, um outro estilo de viver, de pensar e de sentir. Não somos 70 milhões, como diz, já somos 80: o Brasil cresce vertiginosamente.
Creia-me, por tudo, seu amigo atento e obrigado.

Manuel Rodrigues Lapa

1969-06-27
Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1969
Anadia -
Remitente Orixinal - Transcrición

Transcripción da Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1969 en 27/06/1969

Anadia, 27 de junho de 1969.


Meu prezado Amigo

Agradeço-lhe penhoradamente o seu folheto sobre «A evolução transcontinental da língua galego-portuguesa». Parabéns: é um dos homens da Península que melhor compreende o extraordinário futuro que a explosão demográfica do Brasil reserva á nossa língua comum. O seu cálculo de 100 milhões já hoje peca por menos. O último cálculo foi de 117 milhões e não contaram (estùpidamente, aliás) com o galego. Logo, ponha, sem hesitar, 120 milhões até ao fim deste ano. Não tardará muito que, na América, o galego-português seja a 2ª língua, logo depois do inglês. É um tema para meditações que devia estar presente a todos os galegos e portugueses.
Creia-me amigo atento e obrigado.

Manuel Rodrigues Lapa

1976-03-06
Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1976
Anadia -
Remitente Orixinal - Transcrición

Transcripción da Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1976 en 06/03/1976

Anadia, 6/3/1976


Meu estimado Amigo

Muito obrigado pela sua carta. O recorte que lhe enviei, como o meu parecer sobre a União Ibérica (que é, afinal, o parecer de 3 ilustres nacionalistas galegos), foi publicado no jornal lisboeta da tarde Diário Popular. Mando-lhe também hoje, acedendo ao seu pedido, as peças fundamentais deste processo, ou seja os artigos de Oliveira Marques no Expresso de 6/12/1975 e 7/2/76, e a entrevista de Oliveira Marques como o jornalista do Diário Popular, João Paulo de Oliveira, que é quem tem animado este debate, publicada nesse jornal em 20/2/76. Estive para tirar aqui em Coimbra fotocópia desses artigos, mais infelizmente em Coimbra não achei ninguém que as tirasse com perfeição, motivo por que lhe peço o favor de me devolver os artigos que lhe mando, quando já não lhe forem precisos. Se, entretanto, se publicar mais alguma coisa sobre o assunto, eu lho enviarei.
Creia-me amigo atento e obrigado.

Manuel Rodrigues Lapa

1978-08-16
Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1978
Anadia -
Remitente Orixinal - Transcrición

Transcripción da Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1978 en 16/08/1978

Anadia, 16/8/78


Meu bom e prezado Amigo

Recebi o rico presente que é o seu livro, A galecidade na obra de Guimarães Rosa, que do coração lhe agradeço. Já o percorri ao de leve; vou lê-lo a fundo, com o maior interesse, e depois lhe direi a minha opinião. Para já, posso adiantar algumas considerações de ordem geral.
O grande escritor mineiro representa efectivamente a velha raiz galego-portuguesa, fundamentalmente implantada em Minas Gerais e ainda vigorosa na fala, nos costumes e no temperamento do homem do sertão (o mineiro é considerado, em defeitos e virtudes, o galego do Brasil). Com essa cultura e esse linguajar construiu Rosa os seus livros. Mas não tenhamos ilusões: não é com essa «estenografia literária» que se faz literatura. Quanto a mim e outros mais, a obra pioneira e revolucionária de um Mário de Andrade (Macunaíma) e de um Guimarães Rosa ficará como um exemplo curioso das audácias e desmesuras a que pode levar a escrita manejada por grandes escritores populistas. Ficará apenas como um documento linguístico, um exercício, por vezes genial, de estilo.
A língua literária não é isso, é justamente o contrário: superação, criteriosa e artística, da língua oral. Este principio, formulado por Bally, o fundador da Estilística moderna, foi aplicado por mim a um seu conterrâneo e meu amigo, o R. Otero Pedrayo, uma espécie de Guimarães Rosa sem genialidade nem sertão. E foi um desastre, como viu. Voltaremos a encontrar-nos e falaremos sobre esta matéria, pois ainda há muito que dizer.
Um abraço cordial e agradecido do seu velho amigo,

Manuel Rodrigues Lapa

1979-06-26
Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1979
Anadia -
Remitente Orixinal - Transcrición

Transcripción da Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1979 en 26/06/1979

Anadia, 26/6/79


Meu bom e prezado Amigo

Desculpe a demora em agradecer a oferta do seu livro, Cem chaves de sombra, onde, mais uma vez, o homem destemido faz da poesia a arma da sua luta pela Terra que o viu nascer. O «Pequeno testamento» é, a tal respeito, uma peça antológica. Parabéns pelo seu livro. A Galiza está precisando de homens assim: que vejam claro e obrem consequentemente, e sobretudo rapidamente; quando não, a cultura e a língua têm os dias contados.
O Sá da Costa mandou-me a fotocópia da sua carta, que muito apreciei. Diz muito bem: cumpre reabrir o triálogo. É o que venho fazendo de há muito. Como prova disso, envio-lhe o recorte de um artigo publicado no dia de Camões, o nosso santo padroeiro, que uma vez chamou «sórdidos» aos galegos, por atraiçoarem a fraternidade que deve sempre existir entre eles e os portugueses. Foi em nome desse ideal que amaldiçoou desse jeito os seus próprios avós galegos, um (Vasco Peres de Camões), prisioneiro, outro (Airas Peres de Camões), morto na batalha de Aljubarrota. É indispensável esclarecer todos estes incidentes históricos e varrer a estrada para a nossa reconciliação. O antilusismo recalcado parece ter ressurgido, de modo selvagem, na polemica desencadeada nos jornais em torno do problema da língua. A imagem da Galiza e sua cultura não fica honrada com tais destemperos. Tenho as peças fundamentais desse processo. O que não sei é se as terei de deitar ao lixo, ou se as terei de aproveitar para fazer o estudo da intelectualidade galega dos nossos dias.
Cumprimenta-o cordialmente o amigo obrigado,

Manuel Rodrigues Lapa

1983-04-26
Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1983
Anadia -
Remitente Orixinal - Transcrición

Transcripción da Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1983 en 26/04/1983

Anadia, 26 de Abril de 1983


Meu bom e prezado Amigo

Com amistosos cumprimentos meus, tenho o prazer de lhe enviar um trabalho sobre o problema da reintegração linguística galego-portuguesa, que me vem ocupando desde há muitos anos, como sabe. Tendo completado há dias 86 anos, tenho razão para crer que este será o meu canto de cisne sobre a momentosa questão.
Foi preparado para se publicar na Revista Brasileira de Língua e Literatura, dirigida pelo Prof. Leodegário de Azevedo Filho, que se prontificou a aceitar a colaboração de especialistas galegos, pondo a revista, como diz em carta de me escreveu, «à disposição da nobre causa da incorporação da Galiza, como nação, ao mundo luso-brasileiro». E como no final do artigo cito uma poesia sua, que vem muito a propósito sobre a reintegração da Galiza em sua esfera cultural, este meu modesto trabalho era-lhe devido por todas as razões. Peço-lhe que o aceite, com o abraço de velho e agradecido amigo,

Manuel Rodrigues Lapa

1983-06-12
Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1983
Anadia -
Remitente Orixinal - Transcrición

Transcripción da Carta de Rodrigues Lapa a Paz Andrade. 1983 en 12/06/1983

Anadia, 12 de junho de 1983


Meu bom e prezado Amigo

Não sei se lhe agradeci, como era meu gosto e meu dever, o livro deveras monumental que dedicou ao Galego nº 1, que foi e será sempre Castelao. Tenho estado doente, prolongadamente enfermo; e as cartas para responder, os livros para agradecer empilham-se no meu escritório; e o meu médico, que também é meu amigo, aconselha-me repouso! Queira perdoar-me: foi esta a vida que eu escolhi.
Tive grande prazer, ao encontrar entre os manuscritos de Castelao a fotocópia daquela carta que ele escreveu ao grande historiador Cláudio Sánchez de Albornoz sobre o galego e o português. É muito para meditar o que ele nessa carta diz: o galego só será verdadeiramente uma língua de cultura, quando vier a confundir-se com o português, como sucede com o português escrito do Brasil. E não o incomodo mais por hoje. Creia-me sempre amigo muito atento e agradecido,

Manuel Rodrigues Lapa